Crônicas do Fim dos tempos I

 O ano é 2023, em uma realidade paralela.

    As bombas lançadas na Europa de entre os anos 1960 e 1970 contaminaram toda a atmosfera terrestre. As sucessivas guerras deformaram toda a superfície terrestre. Dificilmente uma criança nasce fisicamente perfeita, se é a da cidade, a chance é quase nula. O ar é venenoso. É doce, entra facilmente nos pulmões. No início não se percebe nenhum mal. Mas então vêm as crises, as tosses, as dores no peito. A sensação é de ser sufocado o dia inteiro. É claro, o jornal - ou o que sobrou dele - segue dizendo que não há nada de errado com o ar. Afinal, estamos em 2023 e os efeitos da bomba já cessaram. O jornal diz que as crianças estão normais e que o mundo nunca foi tão bom como antes. Até alguns anos atrás, nenhum jornal se assumia simpatizante das guerras de 60. Mas, parece que cada vez mais se tem perdido o pudor e se portado claramente a favor daqueles efeitos catastróficos.

    As guerras de 60 eliminaram os Retrógrados. Foram diversas as frentes de batalha, mas em geral, parecem não terem sido muito resistentes. Diante do que acreditavam ser a eminente crise global, eles decidiram se juntar e fundar um Estado próprio, ao norte da França. A princípio, parecia ser um movimento fantasioso, mas quando começaram a se espalhar, as nações passaram a olhar com seriedade. Começou com pequenas prisões, mas o número de seus membros era muito grande. Não havia mais jeito. A solução era eliminá-los como ratos, bombardeando logo todos os lugares que haviam infectado, como uma casa em que a única solução para eliminar as pragas e impedir que se propaguem para toda a vizinhança é jogar fogo. Aparentemente havia funcionado, mas então a Rússia achou um pretexto para anexar novas regiões e, assim, a década se afundou em guerras.

    Nunca entedi direito o que eram de fato os Retrógrados e no que acreditavam. Aprendi na escola que eram pessoas estranhas que vestiam roupas largas e pregavam a violência contra o mundo. Me parece que tiveram o que mereciam: se não fossem eles, o mundo não se teria afundado em guerras... certo? Foi isso o que aprendi.


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